Thursday, July 04, 2013

Insônia Social


As manifestações sociais - sejam em forma de passeatas, cartazes ou mídia digital - estão revivendo tempos memoriais em nossa história recente. Foi assim com o movimento das Diretas Já e o do "caras-pintadas". O gigante adormecido parece sofrer de insônia de vez em quando. E se manifesta. O interessante é observar que de forma claramente perceptível seus participantes parecem caminhar sobre uma linha que separa dois países. Um é o Brasil para morar. Então aqui estão principalmente as questões morais, como a corrupção, assim como as questões do custo da passagem, pois as pessoas têm que se deslocar de onde moram para onde trabalham. Reclamam também dos governantes que não cuidam das cidades onde moram. Do lixo nas ruas e da segurança. Cartazes, camisetas e adesivos resplandecem ao lado de discursos ensaiados ou não. E claro, dos salários, pois como irão pagar o aluguel ou a prestação do financiamento para morar. Crucificam a maioria dos políticos existentes. Muitas vezes com toda razão.
Mas há um outro Brasil, pelo que se pode perceber. O Brasil do viver. Muitos participantes entendem que nesse outro País, dentro de si mesmo, tudo é permitido. O negócio é viver. Sem restrições. Então, são os mesmos cidadãos que jogam lixos em lugares impróprios ao passarem, que depredam o patrimônio público, que picham paredes de prédios e quebram suas fachadas. Como faz bem ao viver, quem sabe, até tomam uma cervejinha ao longo da passeata. Atrapalham o trânsito, fecham pontes e bloqueiam ruas. Bares aproveitam para faturarem um pouco mais, oportunistas de plantão fazem uma campanhazinha política e assim por diante. Na forma de um viver sem restrições, protestar contra o morar. É emocionante e empolga muitas pessoas, com suas buzinas ou lâmpadas piscando nas varandas. E alegre. Chato é fazer isso em países muito disciplinados, com uma polícia implacável.

De todo modo, seja na acepção do morar ou do viver, as manifestações são legitimas e merecem ser aceitas como uma forma de convulsão e insatisfação social. Por seus traços culturais o brasileiro assim se manifesta. Por pura incompetência, a democracia representativa perde espaço para a democracia participativa. Manipulada, a primeira forma democrática desfigura a vontade pública e dela se utiliza para interesses espúrios de forma significativa. E assim, a segunda, a participativa, cresce, aparece e se legitima. Só falta amadurecer um pouco. Conciliar o viver com o morar. Ou, como já disse alguém, “sin perder la ternura jamás”.



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