Thursday, January 29, 2015

Ida, sem destino...






Gosto de me dedicar ao cinema e à literatura. Fui ver “Ida”, belo filme polonês indicado ao Oscar. Reflete a aura da arte. Sua fotografia é tão lírica que lembra o esteticismo de Sebastião Salgado, em preto e branco. Ângulos perfeitos, enquadramentos e o formato acadêmico usado distanciam as personagens do ambiente em que estão.  Lembram Sven Nykvist, de Bergman, sem suas cores profundas e doloridas. Cada cena é como se fosse um quadro pintado, lançando mil palavras em nossas mentes. Para lhe fazer um par ideal, o tema musical de destaque vem de Coltrane. E é essa sensibilidade que une um saxofonista sonhador em busca de seu futuro a Ida, uma freira em busca de seu passado.

Ela conta com o apoio da tia, uma juíza judia colaboradora do Estalinismo, que paradoxalmente desrespeita algumas leis, como beber e dirigir. Em uma Polônia marcada pelos traços da Segunda Guerra, ela, atormentada pelo passado, afronta os costumes e a suposta moral jurídica ao beber em bares e neles encontrar amantes por uma noite só. Quando a noviça freira a encontra vê diante de si exatamente o oposto do que um convento e sua fé católica lhe exigiriam. Já nesse primeiro momento percebe um amante se vestindo e saindo como se não houvesse amanhã.

O filme toca na questão da perseguição aos judeus com uma abordagem sutil, mas  avassaladora. Ao ponto de um rude agricultor polonês chorar ao explicar porque matou os pais de Ida e o filho de sua tia. Todos judeus. Resolvido o mistério, Ida retorna ao convento para a cerimônia de juramento de seus votos de fé. Sua tia, resolvido também o mistério da morte do filho, toma uma decisão fúnebre, ao som de uma musica clássica bela e melancólica.
Ida resolve adiar seus votos, volta à casa da tia, reencontra o saxofonista e age despudoradamente como a tia. Quando pergunta ao rapaz, depois do amor, o que viria depois ele diz: casamento, filhos, passeios... Ela insiste: e depois? Ele não soube dizer. Com o nascer do sol iluminando a sala ampla ela recoloca o hábito, abre a porta e sai caminhando por uma estrada. Sem sabermos em que direção. Ao passado ou ao futuro.

No mundo em que as próprias autoridades públicas afrontam as leis, as balas de ecstasy alucinam tragicamente jovens em baladas, traficantes são executados por fuzilamento, um militar mata um carismático surfista, as religiões se confrontam e cartunistas ironizam publicamente a fé alheia e são assassinados, esse filme parecer ser extremamente contemporâneo. E a resposta para o que vem depois da felicidade, como quis saber a noviça, continua sem ser pronunciada. ou ouvida.

1 comment:

Carolina Vieira said...

Que texto sublime... parabéns!